A Bíblia: Deus que fala e caminha com seu povo

 

Neste mês de setembro que se inicia, somos convidamos a voltar nossa atenção de maneira mais veemente, ao estudo acurado e incisivo da Sagrada Escritura. É uma oportunidade singular que a Igreja nos propicia para conhecermos e perscrutarmos os desígnios do Senhor, que fala com seu povo nos meandros da história.

Para ilustrar a temática em voga, trago um episódio que presenciei há alguns anos, quando participava de um curso bíblico. Em alto e bom tom, um aluno interpelou o professor, “se poderia dar credibilidade aos escritos bíblicos, uma vez que os seus relatos não estão em consonância com os dados históricos”!

Penso que seja desnecessário adentrar nos pormenores da questão, só trouxe esse exemplo para aludir, como há entre nós, forte tendência em ler a Bíblia e a interpretá-la a partir de chaves puramente históricas e factuais, o que pode não levar a uma leitura frutuosa e, que denota, dentre outras coisas, que por razões históricas, ainda temos um conhecimento míope das questões inerentes à Palavra de Deus.

Em se tratando do estudo bíblico e de tudo o que isso possa implicar, é preciso ter bem claro e definido, que o autor sagrado não tem a finalidade de satisfazer a nossa curiosidade intelectual. Se para nós, a Bíblia é uma referência que nos faz viver e viver plenamente (Cf Jo 10,10), importa que possamos penetrá-la cada vez mais e tirar d’Ela lições para a nossa vida, tendo-a como modelo e guia de salvação. 

Ao mantermos contato com a Palavra de Deus, é importante atentarmos para o fato de que Ela quer sempre transmitir uma mensagem, e que está sempre associada à vida de um povo e que tem relevância para todos aqueles e aquelas que se abrem ao Espírito de Deus, independentemente do tempo histórico em que se vive.

Dentro dessa perspectiva, é fundamental não negligenciarmos que a revelação judeu-cristã é a história de uma longa aproximação que possibilita Deus e os seres humanos a estabelecerem laços cada vez mais estreitos. E a Bíblia, por sua vez, é a testemunha viva dessa caminhada de um Deus que se mostra, se revela e, de certo modo abraça seu povo e participa de seus sofrimentos e alegrias.

A Bíblia é, concomitantemente, testemunha de um povo que, por meio de múltiplos caminhos, permanece habitado pelo desejo sempre ardente de Ver Deus e de viver na sua presença. Por meio de linguagem alegórica, podemos dizer que há no coração de Deus um imenso desejo de relacionar-se com o humano, uma sede de se comunicar. E esse desejo de se manifestar ao humano “obriga-O” a inscrever-Se no tempo e no espaço. Isso porque somos contingentes, limitados, imperiosamente submissos a estas duas dimensões: tempo e espaço.

Quem lê a Bíblia, provavelmente já se deparou, não raras vezes, com relatos que apontam para uma espécie de duplo movimento dessa aproximação de Deus, o que nos remete, por analogia, à historinha da raposa e do Principezinho de Saint- Exupéry, que cativavam-se mutuamente.

Nessas tentativas, encontramos passos decisivos que foram dados em momentos e lugares determinados. A “descida” de Deus na sarça ardente, por exemplo, constitui uma das etapas essenciais. Moisés pode aproximar-se, olhar, manter-se na presença divina e conversar com Deus (Cf Ex 3,2). O Sinai foi o cenário desse fabuloso encontro.

Deus abraçou de tal modo o seu povo que Ezequiel declara: “a glória de Javé elevou-se do meio da cidade (Jerusalém) e foi pousar no monte que fica a oriente da cidade (Ez 11,23)
Como pudemos perceber, essa longa aproximação de quase dois mil anos culmina na encarnação, de maneira que Deus e a humanidade formam um só em Jesus Cristo. É, em outros termos, dizer que Deus nasce, vive, trabalha, mora e viaja no meio dos homens e mulheres.

Sob esse olhar, a Palavra de Deus deve ser entendida, não como um emaranhado de palavras estéreis, sem vida e sem sentido, mas a Bíblia deve ser concebida como manifestação de Deus que fala com seu povo, um Deus que não está alheio à história dos homens e mulheres, mas que escuta seus clamores e os salva.

A esse propósito, é importante destacar que a exegese* atual insiste no fato de que se queremos ler a Bíblia e compreendê-la na sua maior riqueza e profundidade, é mister não abdicar do estudo de seu contexto histórico, geográfico, cultural, político-social e religioso, onde grassam os principais acontecimentos da história da salvação. Caso a nossa leitura bíblica seja desprovida desses elementos, ela corre o risco de se tornar tendenciosa, perigosa, alienante e descomprometida.

Todavia, não se quer dizer que quem não tem acesso a esses elementos é incapaz de ler a Sagrada Escritura e dela colher bons frutos para a sua vivência cristã, mas certamente, com o auxílio deles tudo ficará mais claro e transparente, pois, Deus que é mistério, se deixa encontrar por aqueles que O procuram! 

 Maciel Pereira de Azevedo, CRSP.
E-mail: macielpazevedo@yahoo.com.br
               

 

(*) Ciência que se detém na interpretação profunda dos textos sagrados

 

 

 

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