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História
da Mooca

>> Depois de ler a história do nosso bairro, clique aqui para ler a matéria da Folha de S.Paulo de 30/03/2007 - sobre "O melhor lugar para morar em São Paulo"
Quem imagina a Mooca como um bairro
provinciano e macarrônico, cuja principal diversão
é, nos sábados à noite, comer pizza regada
a vinho nas dezenas de pizzarias ali existentes, conforme muitas
vezes já ironizaram as inúmeras novelas e programas
humorísticos da televisão, não está
muito errado.
Este bairro possui características
muito próprias que o distingue de todos os demais bairros
de São Paulo. Uma dessas características é
a forma de falar de seus moradores: a Mooca possui um sotaque próprio,
inconfundível. Mesmo quem não é originário
de lá, mas que ali vive já há algum tempo,
adquire esse sotaque, esse jeito de falar com as mãos.
Mesmo sem ser um bairro do qual se poderia
orgulhar pelo status social, o mooquense tem orgulho em dizer que
é morador da Mooca. É comum ver pessoas com inscrições
em camisetas ou adesivos em carro, manifestando sua paixão
pelo bairro.
A Mooca é um estado de espírito
que só os mooquenses natos conseguem entender, mas não
explicar, vem da época em que ali havia tempo e espaço
para as longas conversas nos portões. Quem nasce na Mooca,
dificilmente transfere-se para outro bairro e se o faz está
sempre de volta às suas origens.
Apesar de sua história se confundir
com a da própria cidade de São Paulo (ou vice-versa?),
não existem muitas referências a respeito da história
da Mooca, um dos mais tradicionais e antigos bairros desta cidade.
Mas, mesmo nas poucas referências encontradas, muitos fatos
e detalhes interessantes e importantes são dignos de serem
relatados.
A Fundação
Pelo que se sabe, o dia 17 de agosto de 1556 é o marco do
surgimento da Mooca. Nesse tempo, ou seja, apenas 56 anos após
o descobrimento do Brasil, estas terras eram habitadas por índios,
que se concentravam perto de um extenso rio – Tameateí
ou Tometeri, hoje Tamanduateí – e se espalhavam pela
região adentro, que era rodeada por muitos riachos.
Já no livro “A Igreja na
História de São Paulo” a primeira referência
ao bairro data de 1605, quando o local ainda era conhecido como
Arraial de Nicolau Barreto, onde Brás Cubas construiu a capela
de Santo Antônio, mais tarde transferida para a praça
Patriarca.
Segundo os historiadores, a região
leste de São Paulo, onde se situa o bairro da Mooca, deve
ter sido o local da maior concentração de índios
de São Paulo e até do Brasil. O elemento indígena
foi tão forte por aqui, que deixou sua lembrança até
no nome do bairro: Mooca.
Acredita-se que esta palavra indígena
tenha surgido no século XVI, quando os primeiros habitantes
brancos começaram a construir suas casas. Os índios,
curiosos com a novidade exclamavam “moo-oca” (moo =
faz , oca = casa) . Uma outra versão diz respeito a mesma
expressão, mas relacionada ao fato de os jesuítas
mandarem barro para seus colegas da região leste e estes
ensinavam os índios a fazer casa, ou como já vimos,
“moo-oca”. Outra hipótese a respeito da origem
do nome Mooca, também se relaciona a uma outra expressão
indígena, muito parecida com a outra versão: ”moo-oka”
= ares secos, enxutos.
Essa versão é injustificável,
pois, como já visto, a região, de seca, não
tinha nada. Visto que era cercada, além do rio Tamanduateí,
pelo riacho do Ipiranga, rio Tatuapé, riacho da Mooca, Aricanduva
e vários outros.
Ainda hoje, muitos nomes de ruas do
bairro têm sua origem em palavras indígenas: Javari,
Taquari, Cassandoca, Itaqueri, Araribóia, Guaimbé,
Tabajaras, Camé, Juatindiba e outras. Aliás, além
do indígena, outro elemento foi importante na origem do bairro
da Mooca: o rio.
No início, esta região
fazia parte das terras de João Ramalho, que nem chegara a
tomar posse e, segundo conta a história, teria ajudado na
catequisação e colonização dos índios.
Em 1567, Brás Cubas recebe oficialmente
do Capitão Mor Jorge Ferreira a função de desbravar
essas terras e fundar o Belém, Tatuapé e a Penha.
Na região leste, logo se tomou
conhecimento da tribo Guaianases, do tronco tupi-guarani, que dominava
o local.
Para aqui se chegar saía-se da
Freguesia Eclesiástica da Sé, descia-se a rua do Carmo,
atingia-se a rua Tabatinguera até atingir uma ponte de madeira
denominada Tabatinguera ou Ipiranga chegando-se a uma trilha que
se estendia até a Penha.
Essa trilha feita pelos pés dos
caminhantes – brancos e índios, animais e rodas dos
carros-de-boi - se transformou no que é hoje a rua da Mooca.
O tempo se passou. Nos fins do império,
durante a primitiva República, a região possuía
enormes casas, rodeadas por belas chácaras.
Em 10 de agosto de 1867, a Câmara
Municipal de São Paulo, então chamada de Câmara
Régia, começou a doar terras para a formação
de um povoado. Em 1869, já se notava muitas casas pequenas
e pobres e, assim, o povoado foi crescendo.
O Jóquei Clube da Mooca
Poucos anos depois, ou seja, em 1876,
um fato importante marcou a história do bairro: Rafael Paes
de Barros, senhor de muitas terras na região, que se estendiam
até a Vila Prudente e Vila Alpina, criava o Clube Paulista
de Corridas de Cavalo, atual Jockey Club, cujas arquibancadas comportavam
1200 pessoas, no sopé das chamadas colinas da Mooca, no mesmo
local onde hoje está instalada a Subprefeitura da Mooca.
Em conseqüência disto, um
ano depois, para atender aos apaixonados por turfe, criou-se a linha
de bonde Mooca-Centro, movida a tração animal.
Estava formado um envolvente centro
de lazer, logo freqüentado pela alta sociedade do café,
que vinha do Centro para apostar grandes somas nas corridas de cavalo,
inclusive onde a Marquesa de Santos, já envelhecida, era
uma das animadoras das corridas. Vale ressaltar que a Mooca foi
escolhida para a localização do Turfe de São
Paulo porque aqui era um ambiente de alta categoria, considerado
um bairro excelente para se morar. O “Prado” permaneceu
no local por 64 anos.
A Mooca já era, então,
um bairro valorizado. Juntamente com os largos São Francisco
e São Bento, constituía ponto de passagem de carros,
puxados por animais.
Na época, este meio de transporte
era uma inovação e logo São Paulo começaria
a se transformar com a chegada da estrada de ferro Inglesa, com
um ramal se estendendo pela rua dos Trilhos até o Hipódromo.
Um nova civilização surgia
com os primeiros italianos chegando a São Paulo para trabalhar
nas lavouras de café. Em pouco tempo estava firmada a Sociedade
Italiana da Mooca. E mais imigrantes aqui vieram se instalar: espanhóis,
portugueses e na década de 30 os hungareses, como eram chamados
os imigrantes da Europa Central e Ocidental.
Foi a Hospedaria do Imigrante, um prédio
inaugurado em 1887, que recebeu esses imigrantes vindos de todos
os cantos do mundo. Foram aproximadamente 3 milhões de pessoas
que passaram por suas dependências nos 91 anos de existência.
Atualmente funciona como Museu da Imigração e Memorial
do Imigrante com o objetivo de reunir, preservar e expor a documentação
e memória dos imigrantes.
O bairro foi aos poucos se formando;
o local que era cheio de chácaras e sítios logo passou
a ser ocupado por fábricas e usinas, além de casas
de moradias para seus operários. Assim é que entre
1883 e 1890 instalaram-se algumas fábricas de massa como
Carolina Gallo, Rosália Médio, Romanelli e outras.
Em 1891, foi fundada a Cia. Antarctica
Paulista, que começou a funcionar no bairro da Água
Branca, mudando-se para a Mooca em 1904, quando a Cia. adquiriu
a antiga Cervejaria Bavária, instalada no parque industrial
que atualmente é ocupado pela Antarctica. Vale ressaltar,
também, que a Mooca teve uma grande importância na
economia de São Paulo, com a indústria têxtil
assim como de outros setores.
O pioneiro foi o Cotonifício
Rodolfo Crespi – maior tecelagem da América Latina
nos anos 30. Depois vieram muitas outras: Armazéns Matarazzo,
Grandes Moinhos Gamba, Casa Vanordim, Tecelagem Três Irmãos,
Andrauss Cia Paulista de Louças Esmaltadas, Fabrica de Tecidos
Labor, Frigorífico Anglo, Máquinas Piratininga, Aluminios
Fulgor, Cia União dos Refinadores, etc. Com isso a Mooca
passou a ser considerada um bairro fabril.
A concentração de indústrias
na região foi o fator que levou a greve geral de 1917 a eclodir
justamente na Mooca. Marcado pela morte do sapateiro espanhol José
Martinez, o movimento começou na R. Piratininga, em frente
a fábrica da Antarctica, mobilizando mais de 10 mil pessoas.
Os grevistas pediam a regulamentação do trabalho de
menores e mulheres, redução da jornada de trabalho,
que se estendia até por 12 horas, e garantias trabalhistas.
A primeira fábrica a parar foi o Cotonifício Crespi,
em 22 de junho, como uma reação à tentativa
da empresa de prolongar o trabalho noturno sem aumento de remuneração.
O movimento atingiu outras empresas e foi reprimido com violência
pela polícia.
Mas não só de trabalho
viviam os moradores do bairro. Em 1923 foram inaugurados o Cine
Teatro Moderno, o Cine Santo Antônio, em seguida o Cine Aliança,
o Imperial, o Icaraí (mais tarde Ouro Verde) e o Patriarca.
Outro lazer, aliás, prazer dos
mooquenses, era o “footing”, realizado aos sábados
e domingos, entre a rua João Antônio de Oliveira e
avenida Paes de Barros, onde as moçoilas desfilavam aos grupos,
enquanto os rapazes sem namoradas ficavam apreciando e esperando
por algum olhar convidativo. Com essa farta oferta de lazer e com
um significativo número de boas lojas, o mooquense dificilmente
saia do bairro.
A Revolução de 1924
Decorria o ano de 1924. Oficiais do
exército contrários ao governo do então Presidente
da República, o mineiro Arthur Bernardes, deflagaram um movimento
nacional que, em São Paulo, resultou na derrubada do então
presidente do Estado, Carlos de Campos. O Governo Federal reagiu
e acabou massacrando a população da cidade.
A revolta demorou 23 dias e deixou como
saldo 503 mortos e 4846 feridos, em sua grande maioria civis.
Preocupados com a amarga e, então,
recente experiência de Canudos, vila sertaneja que resistira
de casebre em casebre a investida do exército, os oficiais
estavam convencidos de que só pelo arrasamento inicial de
grande parte da cidade, com a ação conjunta de aviões
e artilharia, seguida do ataque às trincheiras pelos carros
de assalto, completado pela baioneta, na luta corpo a corpo, seria
possível esmagar o levante paulista.
Os bairros da Mooca, Belenzinho e Braz
foram os primeiros a sofrer as conseqüências cruéis
desse plano. Em desespero, os moradores começaram a abandonar
suas casas. As famílias mais abastadas procuravam sair da
cidade, com destino a Santos, Jundiaí, Campinas e outras
cidades. Muitos, não tendo onde se abrigar, acampavam ao
ar livre, armando barracas improvisadas em locais ermos dos bairros.
Desta forma, o dia 13 de julho desse ano foi particularmente dramático
para os paulistanos, especialmente para os moradores da zona leste.
Os bairros da Mooca, Braz e Belenzinho
foram atingidos por um canhoneiro tão pesado que as ruas
ficaram repletas de cadáveres. Os coveiros não davam
conta de cavar sepulturas para enterrar todos os mortos, o que levou
muitas famílias a enterrar os mortos nos quintais de suas
casas.
Em 23 de julho, nova tragédia.
Dois aviões carregados com bombas começaram a sobrevoar
a cidade a elevada altitude, para evitar a artilharia dos rebeldes
e atacaram a Mooca. A terra tremeu com as explosões, casas
desabaram, muita gente morreu.
E logo se percebeu porque este bairro
fora escolhido: não encontrando muitos civis dispostos a
se engajar na luta, os militares rebelados procuraram imigrantes
italianos, húngaros e alemães, todos muito pobres,
e lhes ofereceram 30 mil réis e a promessa de 50 hectares
de terra. Muitos não resistiram a mirabolante proposta e
se alistaram. Como a Mooca era reduto de trabalhadores italianos,
acabou castigada.
A Mooca Pós-Revolução
Estamos em 1925. A avenida Paes de Barros,
a rua da Mooca, a rua do Oratório e todas as suas transversais
ainda não possuíam calçamento. A primeira rua
urbanizada foi a Conselheiro João Alfredo. Apesar de já
existirem carros a motor, ainda eram muitos os veículos a
tração animal.
O próprio corpo de bombeiros
e os carros de segurança da Light moviam-se a tração
animal. Mas, logo o bairro da Mooca recebeu um prêmio: foi
o segundo bairro a ganhar o bonde “camarão”.
Neste período, o avanço do transporte facilitou a
formação do Clube Crespi, do qual de originou o Clube
Atlético Juventus.
Na década de 30, São Paulo
passou a ter um crescimento maior e os bairros continuavam a acompanhar
este ritmo. Nessa década, a iluminação pública
foi trocada pela eletricidade, os últimos lampiões
da Mooca estavam na subida da rua da Mooca, na esquina da Marques
de Valença e em direção ao Parque da Mooca.
Na década seguinte a Mooca era considerado um bairro de elite,
passando a Avenida Paes de Barros a receber famílias abastadas
que construíam suntuosas mansões, algumas delas ainda
hoje encontradas.
Em 1947, com quase 100 mil habitantes,
a Mooca era o bairro mais populoso de São Paulo, além
de possuir o maior colégio eleitoral, com mais de 30 mil
eleitores. Até os anos 50, a Mooca concentrava grande parte
das indústrias da cidade, principalmente dos setores têxteis
e de alimentos. Hoje, poucas indústrias ainda se encontram
em seu território.
A Mooca de Hoje
Seguindo, todavia, tendência existente
para as grandes avenidas de São Paulo, a maioria dessas mansões
cedeu espaço para modernos edifícios, alguns deles
sofisticados, ou transformadas em estabelecimentos bancários
e comerciais. Uma nova Mooca, porém, se ergueu nos últimos
anos, nas cercanias do clube social do Juventus, com a construção
de residências de alto padrão.
Segundo especialistas do setor imobiliário,
a Mooca vem passando por um processo de transformação
imobiliária. As fábricas e indústrias de outrora
cederam e continuam cedendo espaços para novos e diversificados
empreendimentos imobiliários.
Assim, demonstrando toda essa característica
contrastante, pode-se encontrar ainda hoje muitos casarões
antigos, com suas fachadas em vários estilos, construídas
pelos “maestri”(os mestres construtores), adornadas
de guirlandas e baixos relevos, objeto de admiração
e estudo de novos e surpresos arquitetos, ao lado de modernas residências,
assim como de estreitas ruas, típicas de velhas cidades da
Europa, ao lado de largas avenidas.
Segundo dados da Fundação
SEADE, a população do bairro é de 59.685 habitantes
(2005), que ocupam 7,7 quilômetros quadrados de área.
A Mooca procura resgatar a riqueza do
passado, mas com os olhos voltados para a qualidade de vida. No
galpão onde funcionou o Cotonifício Crespi foi instalado,
em 2005, um hipermercado; e neste ano foi inaugurado o Shopping
Capital – 1º shopping da Mooca, na avenida Paes de Barros,
próximo ao Clube Juventus.
Por sua vez, o Núcleo Museológico da Mooca, que funciona
nas dependências da Biblioteca Affonso Taunay, tem como proposta
resgatar a história dos antigos moradores da região
através de um considerável acervo fotográfico,
documentos originais, instrumentos musicais entre outros diversos
objetos.
A Mooca atual é um bairro completo
e autônomo, que conserva suas características residenciais
e familiares, sem abdicar de uma infra-estrutura moderna. É
quase que como uma cidade do interior dentro da cidade grande.
Os tempos românticos, dos
bondes e dos “footings” já se foram, mas a Mooca
continua e continuará sendo sempre a mesma: um lugar alegre,
acolhedor e apaixonante.
Fontes:
http://www.portaldamooca.com.br
http://www.dcomercio.com.br/anchieta/leste.htm
http://www.seade.gov.br
Você sabia que, até
1984, a Mooca comemorava 117 anos?
Por pouco, a verdadeira história
do bairro não caiu no esquecimento. Graças a uma minuciosa
pesquisa feita por Eugênio Luciano Júnior, da Associação
Esportiva Pepe Legal - entidade formada por moradores do bairro
na década de 60 que, em 1985, os mooquenses ficaram sabendo
que o bairro existe desde 1556.
Consta nos dados pesquisados que em
17 de agosto de 1556 os jesuítas construíram uma ponte
sobre o Rio Tometeri, atual Tamanduateí. Essa é a
referência mais antiga sobre o bairro da Mooca. O pesquisador
Raphael Luongo Cardamone, integrante da Pepe Legal, descobriu que
a grande expansão da Mooca aconteceu em fins do século
19, quando a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí acelerou as
importações. Entre 1883 e 1890 houve um surto de industrialização
com a abertura de fábricas de alimentos.
Fonte:
Jornal O Estado de São Paulo – 17/08/95
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