Coluna Mariologia
Maria frutifica na Fé
Lucas nos conta que, logo depois da anunciação, Maria sai às pressas para visitar sua parenta Isabel. Parte de Nazaré, na Galiléia, para outra região, a Judéia, distante dali no mínimo 50 Kilômetros. Leia o relato de Lc 1,39-45, que tem muitos elementos simbólicos.
Talvez Lucas não tivesse clara essa intenção, mas o povo, ao ler o texto da visitação, descobre que Maria é missionária. Transbordando da graça de Deus, não quer retê-la para si. Vai partilhar com sua parenta, de idade avançada, que está grávida e necessita de cuidados. Discretamente, ela já leva Jesus para os outros. Isabel sente logo o resultado. O feto se movimenta dentro dela. Quando se saúdam e se abraçam, o Espírito Santo inunda o ambiente e elas transbordam de alegria. Maria está cheia de Deus. Isabel também. Nessas duas mulheres grávidas se encontram, em semente, seus filhos João Batista e Jesus. Já estão, lado a lado, o precursor e o messias, o que prepara e o que realiza a Boa-Nova, o profeta de Deus e o Filho de Deus. Que lindo encontro! Isabel proclama: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre”(Lc 1,42).
Lucas coloca na boca de Isabel um louvor que faz eco de duas passagens das Escrituras Judaicas nas quais se reconhece a participação especial de mulheres no Povo de Deus. Em Juízes 5,24, se bendiz a Héber, por lutar contra a opressão dos cananeus, golpeando o homem Sísara. Em Judite 13,18-20 se louva Judite, que com coragem e estratégia, eliminou o general do exército da Assíria, Holofernes. Maria é colocada assim dentro da história das mulheres fortes do povo de Israel, que contribuíram para mudar a sorte da sua nação.
“Bendita” significa um louvor à pessoa e reconhecimento que ela é destinatária da benção e do favor de Deus. Reforça o sentido das expressões “cheia de graça” ou agraciada (Lc 1,28) e “encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30), do relato da anunciação. Bendita entre as mulheres quer dizer: a abençoada por excelência. Isso não significa um mero privilégio, mas sim uma graça que possibilita a resposta mais intensa ao apelo de Deus. Em Maria se encontram a gratuidade do amor de Deus e a entrega generosa do ser humano, ou seja, a Graça e a Fé.
“Bendito é o fruto do teu ventre” significa que a fé torna Maria fértil de corpo e alma. Por causa de sua adesão a Deus, do seu compromisso com o projeto divino, Maria realiza a benção de fertilidade prometida ao povo de Deus no livro do Deuteronômio:
“Se tu obedeceres à voz do Senhor, essas serão as bênçãos que virão sobre ti e te envolverão: bendito serás na cidade, bendito serás nos campo; bendito será o fruto do teu ventre, o fruto do teu solo e dos teus animais. Bendito serás ao chegar e ao sair. A benção do Senhor estará em todas as tuas realizações” (Dt 28,1-4.6.8).
Conhecendo a fé de Maria, semeada, cultivada e amadurecida em belos frutos, podemos entender as reações e expressões de Jesus, narradas por Lucas, nos relatos da vida pública. Longe de ser uma ofensa à mãe, as palavras de Jesus revelam o segredo de Maria. Seu principal mérito está em ser uma pessoa de fé, que acolhe a palavra de Deus e a concretiza. Ser mãe é uma conseqüência de sua fé e uma forma dela realizar a vontade de Deus. Quando os familiares de Jesus vão procurá-lo e não conseguem alcançá-lo por causa da multidão, ele diz: “A minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21).
Em outra ocasião, Jesus está falando à multidão, quando uma mulher grita repentinamente: “Felizes o ventre que te carregou e os seios que te amamentarem”. As imagens de “ventre e seios” aludem claramente à maternidade biológica. Dentro da cultura judaica da época, a mãe deveria receber os méritos de ter um filho tão importante. Jesus destaca novamente que a importância de Maria vem em primeiro lugar de sua fé ativa, que escuta a palavra do mestre e a transforma em gesto. Ele diz: “Antes, bem-aventurados (felizes) os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11,27s).
Alguns séculos depois, Santo Agostinho dirá que Maria concebeu Jesus primeiro no coração e depois no corpo. Antes de ser a sua mãe carnal, acolheu-o pela fé. Sem a fé, não adiantaria ela ter-se tornado a mãe do Senhor. Agostinho captou bem a mensagem do evangelista.
Resumidamente, qual é a principal característica de Maria, segundo Lucas? Ela encarna com fé a Palavra de Deus. Guarda-a no coração e a coloca em prática, dando muitos frutos. Esses são também os traços básicos de todo discípulo de Jesus. Pela sua fé, Maria é o exemplo do cristão, seguidor e aprendiz do Senhor. Em Maria, a fé se traduz em ser mãe, educadora e discípula de Jesus. Sua importância não reside em primeiro lugar na maternidade. E sim, na fé, compromisso radical e inteiro a Deus e ao seu projeto.
Ir. Afonso Murad
E-mail: amurad@marista.edu.br
BIOGRAFIA
Afonso Murad nasceu em 1957, na cidade de Colatina-ES, é doutor em Teologia Sistemática pela Universidade Gregoriana de Roma. Autor de várias obras de teologia e de pastoral, entre as quais Introdução à Teologia e a Espiritualidade como caminho e mistério. No âmbito da Mariologia publicou várias obras, entre as quais Quem é esta mulher? Maria na Bíblia, e O que Maria tem a dizer às mães de hoje. Atualmente é professor de Teologia no Centro de Estudos Superiores dos Jesuítas, em Belo Horizonte (MG) e no Instituto São Paulo de estudos Superiores, em São Paulo.
OUTROS TEXTOS:
Maria acolhe a proposta de Deus
Bodas de Caná, a ação simbólica de Maria
Maria em Lucas
Dogma, “Maria mãe de Deus”
|