Terceira urgência: Igreja – comunidade animada pela Palavra de Deus

86. “Na alvorada do terceiro milênio, não só existem muitos povos que ainda não conheceram a Boa-Nova, mas há também muitos cristãos que têm necessidade que lhes seja anunciada novamente, de modo persuasivo, a Palavra de Deus, para poderem experimentar concretamente a força do Evangelho [...]; particularmente as novas gerações têm a necessidade de ser introduzidas na Palavra de Deus através do encontro e do testemunho autêntico do adulto, da influência positiva dos amigos e da grande companhia que é a comunidade eclesial” (VD, 96-97). “Toda a evangelização está fundada sobre a Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso, é preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza, se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a Palavra de Deus se torne cada vez mais o coração de toda a atividade eclesial. A Palavra de Deus ouvida e celebrada, sobretudo na Eucaristia, alimenta e reforça interiormente os cristãos e torna-os capazes de um autêntico testemunho evangélico na vida diária” (EG 174).

87. Hoje, compreende-se que não basta um contato casual e momentâneo com a Palavra de Deus. Ao contrário, este contato tem que ser profundo e vivencial, onde as pessoas sejam levadas a ver a própria vida à luz da Palavra e, assim, possam empenhar-se por colocá-la em prática efetivamente. “A evangelização requer a familiaridade com a Palavra de Deus, e isto exige que as dioceses, paróquias e todos os grupos católicos proponham um estudo sério e perseverante da Bíblia e promovam igualmente a sua leitura orante pessoal e comunitária” (EG 175).

88. Trata-se de acolher a Palavra com e na Igreja, superando uma leitura isolada. Por isso, é preciso favorecer a leitura da Palavra de Deus na comunhão com muitos irmãos e irmãs que se alimentam da Palavra e se esforçam por aprofundá-la nas famílias, nos pequenos grupos, nas comunidades eclesiais de base, nos encontros dos movimentos e organismos eclesiais, e nas novas expressões de vida consagrada.

89. Importância especial tem a Leitura Orante da Palavra de Deus, por meio da qual o leitor pode se aproximar do Deus da Palavra, superando a dicotomia entre fé e vida, com o método da leitura, meditação, oração e contemplação da Palavra de Deus.

90. A animação bíblica da pastoral é o esforço de iluminar com a Palavra de Deus toda a vida através do conhecimento e da interpretação, da comunhão e da oração com a Palavra e da evangelização e proclamação da Palavra de Deus.

 

91. Indicações Pastorais

  1. Colocar a Bíblia nas mãos de todos, especialmente dos mais pobres; oferecer, em lugares cada vez mais numerosos, ocasiões para que as pessoas sejam ajudadas a ler corretamente a Escritura e a interpretá-la com a fé da Igreja.
  2. Impulsionar a animação bíblica da pastoral, com agentes e equipes preparados, fazendo da Igreja “escola de interpretação da Palavra, escola de comunhão e oração com a Palavra e escola de evangelização e proclamação da Palavra” (DAp n.248; VD n. 73).
  3. Despertar e fortalecer em todos os níveis da ação evangelizadora (paroquial, setorial, regional e arquidiocesano) a animação bíblica da pastoral, com o objetivo de aproximar cada pessoa da Palavra de Deus, para conhecê-la e interpretá-la corretamente, através de retiros, cursos, encontros, subsídios para a leitura individual, familiar e em pequenos grupos.
  4. Apoiar e investir nos grupos de famílias, círculos bíblicos e pequenas comunidades, que se reúnem para a meditação e vivência da Palavra, em estreita relação com a realidade das pessoas e com o meio em que vivem.
  5. Favorecer o conhecimento da Palavra de Deus nos ambientes secularizados e entre os não crentes, assim como nas escolas e universidades, sobretudo através da educação religiosa; promover manifestações artísticas inspiradas na Sagrada Escritura e a utilização dos novos meios de comunicação social, especialmente a internet e as redes sociais.
  6. Realizar, nos encontros paroquiais das comunidades eclesiais, movimentos e organismos eclesiais, a Lectio Divina, com os seus quatro momentos – leitura, meditação, oração, contemplação –, que favorecem o encontro pessoal com Jesus Cristo, Verbo de Deus que se revelou ao mundo.
  7. Investir na formação continuada dos ministros e ministras da Palavra de Deus, cuidando da sua adequada formação para exercício do múnus de leitor na celebração litúrgica, capacitando-os bíblica, litúrgica e tecnicamente.
  8. Propiciar a sacerdotes, seminaristas, religiosos e religiosas, leigos e leigas a oportunidade de formação litúrgica e musical mais aprimorada, de maneira que possam organizar e orientar a prática musical e transmitir às comunidades animação e beleza nas celebrações.
  9. Valorizar muito a homilia, que atualiza a mensagem da Palavra de Deus, para que os fiéis sejam levados a descobrir a presença do Deus que lhes fala no momento atual de suas vidas. Para que a homilia favoreça a feliz e amorosa experiência do encontro com a Palavra, incentivar os sacerdotes a preparar a homilia, dedicando a essa importante tarefa tempo prolongado de estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral. Nesse sentido, os sacerdotes tomem a peito a aplicação do que o Papa Francisco escreveu na Evangelii Gaudium 110-175.
  10. Destacar, nas comunidades, a leitura e reflexão da Constituição Dogmática “Dei Verbum”, do Concílio Vaticano II, tendo em vista a comemoração dos 50 anos do Concílio e da Exortação Apostólica “Verbum Domini”, de Bento XVI (2010).
  11. As paróquias e comunidades ofereçam aos fiéis oportunidades para retiros espirituais fundamentados na Palavra de Deus, criando e cultivando nos católicos uma mística e espiritualidade bíblica.